
Sua escrita é coloquial, quase um dialogo entre passado e presente. Transpôs-se ao passado, tudo o que escreve, escreve de maneira íntima, como se tivesse vivido aquele passado. Tem influências diretas de Proust.
Um autor sensível aos variáveis estímulos, o período colonial é percebido com suas características, “o seu cheiro e prazer de viver”. Um avanço colossal do modo como nos conhecemos, brasileiros.
Como historiador, desprezou a história político-administrativa-militar, progressista, evolucionista, a linearidade. Optou por uma história rotineira, “onde se sente melhor o caráter de um povo”.
Casa Grande & Senzala, é uma obra política, orquestrada em um ritmo contínuo linear, mas contendo solos, estribos, etc. Tendo uma estrutura clara e sólida, o primeiro capítulo tratando de características gerais, e outros quatro tratando de temas (teses) relacionados ao português, ao negro e ao índio. O negro nessa obra ocupa dois capítulos, diferenciando-se de Varnhagen que os mencionam rapidamente.
Para Freyre, o negro não comprometeu a colonização e o sucesso português na América, mas pelo contrário, foi um agente muito importante para tal feito.
Sua obra gira em torno de cinco teses, o corpo principal de seu livro, quando não está tratando destas, está escrevendo algo que confirma suas teses.
1ª tese: Encontro entre as três raças constituidoras do povo brasileiro:
- Caracteriza-se por um encontro fraterno, viabilizado pela miscigenação. Quando a vitória militar portuguesa foi consolidada, houve uma confraternização entre vencedores e vencidos, essa relação era adocicada com a necessidade dos colonos de constituírem uma família. Essa relação social aproximou a casa grande e a senzala. A colonização portuguesa foi a única que conseguiu construir uma sociedade moderna nos trópicos, uma vez que o resto da população européia amoleciam em contato com os trópicos, e não se misturavam. O português venceu a nova terra e miscigenou-se, criou-se assim a fusão harmoniosa de tradições diversas de cultura.
2ª tese: Como foi possível a miscigenação com relação ao português:
- A “democracia racial” só foi possível devido ao passado étnico e cultural do português, que favorecia a miscigenação. Etnicamente, os portugueses já são miscigenados, são um povo ao mesmo tempo europeu, africano e semita, móvel, adaptável, sem orgulho de raça. Freyre tem grande admiração pelo colonizador português, que segundo ele, deveria também o brasileiro orgulhar-se de ter sua origem entrelaçada com os colonizadores. Traz também uma nova leitura da miscigenação, sendo referência no mundo pós-1945.
3ª tese: Lugar central de encontro “feliz” entre as raças, sob liderança portuguesa:
- A casa grande é o principal “palco” de encontro, que não se separa da senzala, mas a incluindo. Uma construção tipicamente brasileira, adaptada as condições tropicais e à nova atividade, a monocultura. Os sujeitos históricos são as famílias rurais portuguesas, e não a família real. Sendo iniciativa particular que promoveu a mistura das raças, favorecendo o desenvolvimento da estabilidade colonial nos trópicos.
4ª tese: A miscigenação e a degeneração do brasileiro.
- A degeneração do tipo físico do brasileiro, não se deve à miscigenação. Freyre ressalta que o principal vilão foi a monocultura latifundiária com a falta de variedade na alimentação do brasileiro. “A colonização patriarcal do Brasil, explica-se menos em termos de raça e religião e mais em termos econômicos, culturais e afetivos”. A miscigenação foi vantajosa, formou um tipo de homem ideal, moderno para os trópicos, um europeu com sangue de negro e índio.
5ª tese: Tipo de regime apropriado para um povo miscigenado:
- Para Freyre, a relação entre senhor/escravo é sadomasoquista, marcado pela relação sexual e violência. O brasileiro filho dessa relação, é apreciador do mandonismo, do senhor no seu papel. Sendo o regime ditatorial o mais adequado. “O negro revelou-se superior ao índio e ao próprio português em vários aspectos da vida material e moral, técnica e artística [...] foi o maior ‘colaborador’ do branco na colonização”. tornando-se “a sociedade brasileira uma das mais democráticas, flexíveis e plásticas”.
O historiador José Carlos Reis, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, é atualmente um dos mais reconhecidos autores brasileiros quando o assunto é historiografia e espistemologia da história.
Este artigo contém apenas parte do trabalho de fichamento elaborado para a disciplina "Historiografia Brasileira II" 7º período, para a instituição UNI-BH, 1º/2011.
Fonte:
REIS, José Carlos. As identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999. 278 p.
ALBERGARIA, Danilo. José Carlos Reis: O impacto da teoria de Lévi-Strauss além das fronteiras da antropologia e a superação do estruturalismo. Disponível em: <http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&tipo=entrevista&edicao=52> acesso em: 18 mai. 2011.
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