segunda-feira, 14 de março de 2011

Lista dos 100 melhores álbuns musicais brasileiros e seu valor histórico.



Em Outubro de 2010, a revista Rolling Stones entrevistou 60 pessoas, entre jornalistas, estudiosos e produtores, todos versados em música. Dessa entrevista, pediu-se que cada um escolhesse aleatoriamente 20 álbuns musicais brasileiros que não poderiam faltar na prateleira de um bom amante da música. Juntando-se estas listas, formou-se uma lista com os cem melhores álbuns musicais brasileiros descrito abaixo:



Obs: em destaque estão os álbuns que conheço.

  1. Acabou Chorare – Novos Baianos (1972)
  2. Tropicália ou Panis et Circensis – Vários (1968)
  3. Construção – Chico Buarque (1971)
  4. Chega de Saudade – João Gilberto (1959)
  5. Secos e Molhados – Secos e Molhados (1973)
  6. A Tábua de Esmeralda – Jorge Ben (1972)
  7. Clube da Esquina – Milton Nascimento & Lô Borges (1972)
  8. Cartola – Cartola (1976)
  9. Os Mutantes – Os Mutantes (1968)
  10. Transa – Caetano Veloso (1972)
  11. Elis & Tom – Elis Regina e Antônio Carlos Jobim (1974)
  12. Krig-Ha Bandolo – Raul Seixas (1973)
  13. Da Lama ao Caos – Chico Science & Nação Zumbi (1994)
  14. Sobrevivendo no Inferno – Racionais MC’s (1998)
  15. Samba Esquema Novo – Jorge Ben (1963)
  16. Fruto Proibido – Rita Lee (1975)
  17. Racional Volume 1 – Tim Maia (1975)
  18. Afrociberdelia – Chico Science & Nação Zumbi (1996)
  19. Cabeça Dinossauro – Titãs (1986)
  20. Fa-Tal – Gal a Todo Vapor – Gal Costa (1971)
  21. Dois – Legião Urbana (1986)
  22. A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado – Os Mutantes (1970)
  23. Coisas – Moacir Santos (1965)
  24. Roberto Carlos em Ritmo de Aventura – Roberto Carlos (1967)
  25. Tim Maia – Tim Maia (1970)
  26. Expresso 2222 – Gilberto Gil (1972)
  27. Nós vamos Invadir Sua Praia – Ultraje a Rigor (1985)
  28. Roberto Carlos – Roberto Carlos (1971)
  29. Os Afro-Sambas – Baden Powell, Quarteto em Cy e Vinícius de Moraes (1966)
  30. A Dança da Solidão – Paulinho da Viola (1972)
  31. Carlos, Erasmo – Erasmo Carlos (1970)
  32. Pérola Negra – Luis Melodia (1973)
  33. Caymmi e Seu Violão – Dorival Caymmi (1959)
  34. Loki? – Arnaldo Baptista (1974)
  35. Estudando o Samba – Tom Zé (1976)
  36. Falso Brilhante – Elis Regina (1976)
  37. Caetano Veloso – Caetano Veloso (1968)
  38. Maria Fumaça – Banda Black Rio (1977)
  39. Selvagem? – Os Paralamas do Sucesso (1986)
  40. Legião Urbana – Legião Urbana (1985)
  41. Meus Caros Amigos – Chico Buarque (1976)
  42. O Bloco do Eu Sozinho – Los Hermanos (2001)
  43. Refazenda – Gilberto Gil (1975)
  44. Mutantes – Os Mutante (1969)
  45. Raimundos – Raimundos (1994)
  46. Chaos A.D. – Sepultura (1993)
  47. João Gilberto – João Gilberto (1973)
  48. As Aventuras da Blitz – Blitz (1982)
  49. Racional Volume 2 – Tim Maia (1976)
  50. Revolver – Walter Franco (1975)
  51. Clara Crocodilo – Arrigo Barnabé (1980)
  52. Cartola – Cartola (1974)
  53. O Novo Aeon – Raul Seixas (1975)
  54. Refavela – Gilberto Gil (1977)
  55. Nervos de Aço – Paulinho da Viola (1973)
  56. Amoroso – João Gilberto (1977)
  57. Roots – Sepultura (1996)
  58. Antônio Carlos Jobim – Tom Jobim (1963)
  59. Canção do Amor Demais – Elizeth Cardoso (1958)
  60. Gil e Jorge Ogum Xangô – Gilberto Gil e Jorge Ben (1975)
  61. Força Bruta – Jorge Ben (1970)
  62. MM – Marisa Monte (1989)
  63. Milagre dos Peixes – Milton Nascimento (1973)
  64. Show Opinião – Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale (1965)
  65. Nelson Cavaquinho – Nelson Cavaquinho (1973)
  66. Cinema Transcendental – Caetano Veloso (1979)
  67. África Brasil – Jorge Ben (1976)
  68. Ventura – Los Hermanos (2003)
  69. Samba Esquema Noise – Mundo Livre S/A (1994)
  70. Getz/Gilberto Featuring Antônio Carlos Jobim – Stan Getz, João Gilberto e Antônio Carlos Jobim (1963)
  71. Noel Rosa e Aracy de Almeida – Aracy de Almeida (1950)
  72. Jardim Elétrico – Os Mutantes (1971)
  73. Angela Ro Ro – Angela Ro Ro (1979)
  74. Õ Blésq Blom – Titãs (1989)
  75. Tim Maia – Tim Maia (1971)
  76. A Bad Donato – João Donato (1970)
  77. Canções Praieiras – Dorival Caymmi (1954)
  78. Gilberto Gil – Gilberto Gil (1968)
  79. Álibi – Maria Bethânia (1978)
  80. Gal Costa – Gal Costa (1969)
  81. Psicoacústica – Ira! (1988)
  82. O Inimitável – Roberto Carlos (1968)
  83. Matita Perê – Tom Jobim (1973)
  84. Qualquer Coisa/Jóia – Caetano Veloso (1975)
  85. Jovem Guarda – Roberto Carlos (1965)
  86. Beleléu, Leléu, Eu – Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia (1980)
  87. Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão – Marisa Monte (1994)
  88. Nada Como Um Dia Após O Outro Dia – Racionais MC’s (2002)
  89. Carnaval na Obra – Mundo Livre S/A (1998)
  90. Quem é Quem – João Donato (1973)
  91. Cantar – Gal Costa (1974)
  92. Wave – Tom Jobim (1967)
  93. Lado B, Lado A – O Rappa (1999)
  94. Vivendo e Não Aprendendo – Ira! (1986)
  95. Boces Bárbaros – Gil, Bethânia, Caetano e Gal (1976)
  96. A Sétima Efervescência – Júpiter Maçã (1996)
  97. Araçá Azul – Caetano Veloso (1972)
  98. Elis – Elis Regina (1972)
  99. Revolução por Minuto – RPM (1985)
  100. Circense – Egberto Gismonti (1980)


Vê-se que este "top 100" musical é bem democrático, abrangendo quase todos os ritmos musicais nacionais, para a alegria de nossos ouvidos, nem funk e nem axé entraram...

"Olhando a lista com atenção, percebemos que não há disco anterior a 1950, nem posterior a 2003. O período com mais obras na lista são os anos 70: 51 obras foram lançadas entre 1970 e 1979. Em seguida vem os anos 60, com 16 álbuns na lista, seguidos pelos anos 80, com 14 nomes. Anos 90, 50 e 2000 fecham a lista, com 11, 5 e 3 álbuns, respectivamente".¹

Interessante é notar as características históricas de cada década e cruzar com a produção musical do respectivo período. Assim, pode-se analisar a década de 1970 que nos proporcionou 51 obras primas musicais para a posterioridade. Esta década foi marcada por dois tipos de governos, um extremamente repressor e outro que encaminhou o Brasil para a abertura política, ou seja, a redemocratização.

Entre 1969-1974, há 32 álbuns na lista, e nesse período governou o general Médici, autor do "milagre econômico" que proporcionou um (pseudo) rápido crescimento econômico. Mas no entanto, foi o período mais duro e repressivo da ditadura militar, conhecido como "anos de chumbo". "A repressão à luta armada cresce e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são censuradas. Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores são investigados, presos, torturados ou exilados do país. O DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações e ao Centro de Operações de Defesa Interna) atua como centro de investigação e repressão do governo militar." ²

Com a população acuada, a produção musical dá um "salto", como fuga dos problemas, ou mesmo como a única solução de denúncia sem necessitar ir para a guerrilha.
Entre 1974-1979, há 24 obras entre os 100 melhores, esse período corresponde ao governo do general Geisel, que é caracterizado por um lento processo de transição para a democracia, e pelo alto índice de insatisfação nacional com a ditadura militar.

Mais uma vez a produção musical se destaca, frente ao sentimento de união pela liberdade política expressado pelos vários movimentos artísticos, e com a música não seria diferente.

A década de 1980, destaca-se com 13 obras, no qual pode-se dividir em dois, entre 1980-1985 e 1986-1989. No primeiro período, a cena musical destaca-se além do rock'n Roll nacional que toma conta das rádios e da cabeça dos jovens, a expectativa política da abertura à democratização, que teve seu ápice nas campanhas das "Diretas Já", que resultou na eleição indireta à presidência da república de Tancredo Neves, um símbolo marcante na memória nacional, que lutou "ferrenhamente" nas "Diretas Já". O segundo período (1986-1989), resume-se pela expectativa das primeiras eleições diretas à presidência da república, que aconteceria em 1989, a última teria acontecido em 1960 com a eleição de Jânio Quadros. Com a questão ditatorial resolvida, outros temas entraram na "roda", a corrupção, o atraso nacional perante outros países, as constantes inflações, etc. Nesse último indicio também podemos caracterizar a década de 1990, com 11 obras escolhidas, um período de "calmaria" familiar com a criação do plano real em 1994, que possibilitou o aumento da renda familiar brasileira, e possibilitou a extinção das famosas dispensas familiares. Mas no entanto, a corrupção, e outros males continuavam a assombrar o Brasil.

Já a década de 2000, finalizada à pouco tempo, pouco tem a nos oferecer. Uma década crucial para a história do Brasil. Crucial, pois nos possibilitou o destaque internacional pelo bom mercado, a confiança, e o aumento do poder de compra do brasileiro. Na produção musical, vemos claramente, assim como a década de 1960 foi a década da Bossa Nova, a década de 1970 a da MPB, a década de 1980 e 1990 foi a do Rock'n Roll, a década de 2000 vê a crescente dos ritmos do funk carioca e do axé baiano. As letras nos mostram uma população despreocupada com questões políticas e mais voltadas para questões amorosas, sexuais ou mesmo diversão. Isso nos revela um outro Brasil totalmente avesso ao das décadas passadas, isso nos demonstra que o papo político ficou "cafona" uma vez que a situação econômica cresceu. A música dessa década nos mostra que não há mais a preocupação com o bem-estar nacional, todos estão muito mais preocupados consigo mesmo do que com o todo.

Para finalizar esta postagem, tentarei em outras postagens analisar as obras destacadas tanto na questão musical, quanto histórica. Espero que gostem.

Fontes:
² Sua Pesquisa: http://www.suapesquisa.com/ditadura/ Acessado em 14 mar 2011.

4 comentários:

Carcamano da Silva - Goianu Gomes - Sophie Backlund disse...

A última década,musical, tem preocupação com os problemas políticos, econômicos e com o maior problema: a desigualdade social.

Como exemplo temos o Chico Buarque em 2006 com o disco "o carioca"; Lenine em 2008 com "Labiata" em 2008 entre tantos outros artistas que se preocupam com os problemas sociais e expressam muito bem as preocupações em suas músicas.

O funk e o axé não são estilos musicais direcionados a conscientização política e perpetuação da nossa moral, moralmente amoral.

Não vejo conexão entre um trabalho artístico relevante e pensamento crítico embutido no mesmo... Por esse motivo percebo no §1º e no último parágrafo um preconceito explícito pelo música (e funk e axé são músicas sim apesar de não "aceita" pelas nossa sociedade "pensante").

Adorei o post, pois adoro música e sua abordagem foi perspicaz. Como diz o poeta: "melhor que o silêncio, somente João Gilberto" Caetano Veloso.

Fernando Ribeiro disse...

Carcamano! Obrigado por comentar o post! Você tem razão no que diz, na década passada tivemos muita coisa boa que não entrou na lista, mas também devemos lembrar que estes músicos que você citou, já estão na cena músical desde pelo menos a década de 1980, quando ainda havia um movimento juvenil "bacana". Mas a crítica que tenho a fazer é daqueles músicos que surgiram de uns 5 anos até agora. Funk e Axé são estilos músicais sim, embutidos culturalmente no Brasil, são rítmos envolventes, só que para diversão, "zuar". Mas o que me intriga é a constante utilização destas, a alienação, que está afastando as pessoas do debate político, até mesmo moral. Fica aí o meu parênteses...

BR disse...

Música é pra divertir e instrumento de mobilização social seja qual for estilo e o fato de não me enquadrar no estilo musical funk e/ou axé não tenho respaldo para dizer que somente para "zoar"... Esse posicionamento é e acredito que deve ser diferente entre os diversos estilos.

Por: Goianu Gomes

Fernando Ribeiro disse...

Sim entendo, digo que esses dois estilos "marginalizados" são para "zuar" segundo minha concepção... Não agem como instrumento de mobilização social, não são para "relaxamento", não desestressam, não inspiram... São músicas descompromissadas, seja com o afetivo, seja com o político-social. Não vejo mal algum em esses estilos existirem, também agem como "escape" para a população, mas quando são exploradas demais, gera um movimento alienado. É a alienação que questiono. Este post foi criado para a analisar os períodos históricos da produção musical brasileira, é algo capital e sintomático, o modo como as tensões sociais refletem na produção musical brasileira. E hoje? O que combatemos? Temos algum inimigo em comum? O país está estável economicamente, veja o discurso de Obama no Rio, estamos à um passo para o "hall" dos países desenvolvidos. Não temos mais mazelas preocupantes como antes. Isso se reflete na produção musical hoje, é histórico. Precisamos nos encontrar, como não estamos acostumados com a situação favorável da economia, estamos perdidos no meio cultural em que vivemos, enfrentamos uma crise identitária, isso se revela na nossa alienação musical, com o que o Brasileiro quer, diversão, sem preocupação. Precisamos amadurecer mais nesses aspectos, temos inumeros músicos fantásticos que não brilham por causa do forte esquema comercial fonográfico, que trabalham focados no quantitativo.
Também não tenho respaldo para tratar do assunto, mas fica aqui registrado o que penso sobre o assunto. Obrigado pela atenção.

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